Educação a Distância “Suficientista”

[Este post está sendo publicado no Blog das Editoras Ática e Scipione, do qual sou colunista.]

Conheço Wilson Azevedo há cerca de quinze anos. Quanto o conheci ele era pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil e responsável pelo site e pelas listas de discussão da igreja. Já naquela época era também responsável por um interessante programa de Educação a Distância (EAD) na área teológica no Seminário Presbiteriano do Rio de Janeiro.

Desde então, convivemos na lista EduTec, que eu criei em Outubro de 1998, da qual ele foi não só um dos participantes mais ativos, mas o meu principal consultor pro bono. Encontramo-nos várias vezes em eventos da área de tecnologia e educação — especialmente os que envolviam EAD, como as reuniões promovidas ou apoiadas pela ABED – Associação Brasileira de Educação a Distância, criada e dirigida por nosso amigo Fred Litto, hoje aposentado da USP. O Wilson e eu já colaboramos em alguns empreendimentos, como um curso presencial sobre o uso de tecnologia no trabalho eclesiástico para pastores e administradores de igreja, ministrado nas dependências de educação religiosa da Catedral Evangélica de São Paulo (também conhecida como Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo), e um curso a distância sobre escolas inovadoras, em que o José Pacheco, ex-Escola da Ponte, a Rosely Sayão, articulista da Folha de S. Paulo, e eu discutimos escolas inovadoras com que estivemos envolvidos (eu falando sobre a Lumiar).  Quando o Wilson morou em Portugal por um tempo a filha dele estudou na Escola da Ponte.

Recebi, recentemente, um anúncio de que o Wilson estaria ministrando um curso a distância sobre ambientes minimalistas para a Educação a Distância (EAD). Resolvi fazer o curso. Começou dia 22/8/2011, segunda-feira, e vai durar apenas duas semanas (respeitado o descanso no fim de semana entre elas). O Wilson leva a sério o minimalismo até na duração dos cursos dele…

O primeiro texto que li para o curso foi do próprio Wilson: um artigo que tem o título de “O Minimalismo Tecnológico em Educação Online e a Inclusão Educacional e Digital no Brasil”. Fiquei entusiasmado com o que li (embora discorde de alguma coisa, como vai ficar evidente aqui).

Sempre soube, desde os tempos da EduTec, que o Wilson era um “minimalista tecnológico”.  Para explicar que bicho é esse, vou ter de fazer um preâmbulo relativamente longo…

Naquela época, no fim da década de 90, estava começando a se tornar possível redigir e-mails “formatados”. Para os usuários de e-mail de hoje essa noção nem faz mais sentido, porque e-mail formatado é tudo o que eles conhecem: um e-mail no qual você pode escolher o tipo gráfico (fonte), o tamanho e o estilo (normal, negrito, itálico, sublinhado, etc.) das letras que você vai usar, acentuar as palavras, colocar links para sites na Internet, inserir fotos, desenhos, gráficos, etc.

Antes disso ser tecnologicamente possível, porém, os e-mails precisavam ser redigidos em “texto puro”, isto é, sem nenhuma formatação, usando tipo de letra que fosse default no seu computador (em geral o que hoje se chama Courier), tudo de um tamanho só, sem acentos, sem links, sem fotos, sem desenhos, sem gráficos. Algo que fazia lembrar pobreza franciscana. Para deixar claro que a gente queria dizer “é” e não “e” a gente precisava escrever ” e’ ” ou “eh”… Além da pobreza, sofrimento (pelo menos para quem não estava acostumado a escrever sem acento). Naquele contexto, se alguém tentasse enviar um e-mail com texto formatado, a maioria dos sistemas de e-mail de então não era capaz de decodificar a metainformação que especificava como o texto deveria ser formatado e o resultado era um texto ilegível ou, pelo menos, muito difícil de ler, na tela de muitos recipientes.

Pois bem… Naquela época em que todos estávamos entusiasmados com a possibilidade de escrever e-mails com tipos gráficos exóticos, com letras de cores e tamanhos chamativos, o Wilson não se deixou seduzir: continuou partidário do e-mail com texto puro, porque imaginava que muitos de seus interlocutores usassem um mínimo de tecnologia. Continua assim até hoje.

Mas o que parecia, então, apenas uma mania, virou um referencial teórico interessante e sofisticado… Acho que, ao final do curso, o referencial teórico vai ficar mais sofisticado ainda, porque há muita gente boa entre os parcos treze alunos do curso. (O curso dele não é minimalista só na duração: também no número mínimo de alunos com o qual funciona: basta uma dúzia de pessoas e o curso está no ar).

Gosto disso. Se o curso do Wilson durasse seis meses, ou mesmo seis semanas, eu não teria optado por fazê-lo — não tenho tanto tempo disponível. Se exigisse que eu fosse a um Centro de Apoio, para assistir a uma videoconferência, ou a uma universidade, para fazer uma prova, eu passaria longe do curso. Mas duas semanas (na verdade, dez dias úteis, cerca de uma hora por dia, em média), em que posso trabalhar em casa, tarde da noite ou de madrugada, é algo perfeitamente factível.

No artigo mencionado atrás o Wilson faz uma apologia extremamente interessante dos princípios do minimalismo tecnológico em EAD. O minimalismo teórico envolve outros princípios, como a simplicidade e a parcimônia, e possui uma justificativa teórica e pragmática que vale a pena divulgar.

Exceto no caso de algumas universidades, em especial no Estado de São Paulo, onde a Fundação de Amparo à Pesquisa (FAPESP) tinha um link exclusivo com o Fermilab, de Chicago, a Internet chegou ao Brasil apenas em 1995, graças aos esforços do então ministro Sérgio Motta — que pode ser considerado o primeiro mártir da Internet brasileira. Sérgio Motta “peitou” o sistema Telebrás, que queria uma Internet “chapa branca” para o Brasil e conseguiu, com o apoio de FHC, que o acesso à Internet para os usuários finais fosse propiciado por provedores privados de acesso à Internet.

Mesmo assim, nos dez anos que se seguiram (1995-2005) a Internet foi coisa (vamos dizer assim) “de rico”. O preço do hardware era proibitivo, o preço do software era muito alto, e o preço do acesso não era baixo, apesar da entrada da iniciativa privada no negócio, e, portanto, da concorrência. O resultado foi que, durante esses dez anos, quase só as classes A e B tiveram acesso à Internet.

A partir de 2005, por aí, segundo o Wilson, o cenário mudou em muitos aspectos.

a) O preço do hardware caiu significativamente: hoje é possível comprar um netbook (um notebook meio pelado, mas perfeitamente funcional) por cerca de dez prestações mensais de algo próximo a 65 reais;

b) O preço do software também caiu, mas em proporção menor, embora exista hoje no mercado uma quantidade grande de software gratuito — e o brasileiro pessoa física continue a utilizar software pirateado, malgrado a ilegalidade da prática;

c) Os provedores de acesso à Internet também baixaram o preço e melhoraram um pouco a qualidade do acesso, a chamada “banda larga” de 256, 512 e 1024 Kbps começando a ficar comum (1024 Kbps sendo equivalente a 1 Mbps — “Kbps” e “Mbps” sendo equivalentes a, respectivamente, “kilobits por segundo” e “megabits por segundo”) — já havendo, “no andar de cima”, como diz o Elio Gaspari, empresas oferecendo acesso por fibra óptica de até 100 Mbps).  A concorrência do acesso à Internet pelo telefone celular (os smart phones) e, mais recentemente, pelos tablets que usam tecnologia celular, tem contribuído com a redução do custo do acesso.

Fora do plano tecnológico, agora no plano educacional, quase todo mundo na faixa etária da escolarização obrigatória está hoje matriculado numa escola,  a matrícula no Ensino Médio cresceu, o número de Escolas Técnicas cresceu significativamente e, principalmente, melhorou o acesso ao Ensino Superior, com a criação de mais universidades públicas federais, com o aumento de vagas nos CEFET e FATEC, e com a criação do PROUNI.

Com mais gente completando a Educação Básica e mais gente frequentando a universidade ou faculdade, aumentou significativamente a demanda pelo acesso à Internet. Como o acesso à Internet (em seu tríplice aspecto de harware, software e acesso, propriamente dito) estava mais barato, muito mais gente se tornou “digitalmente incluída”, como diz o jargão. E essa gente era predominantemente das classes C, D e até mesmo E.

Com isso, aumentou a demanda por EAD — por parte de gente que não tem acesso à Internet em banda larga de 30 Mbps (muitos ainda têm acesso por linha discada, de nosso máximo 56 Kbps,  cujo equipamento provavelmente é um netbook de 1 ou 2 GBytes (gigabytes) de memória, e cujo software é o básico.

Diante desse quadro, nossa responsabilidade como educadores não se exaure em oferecer a essa clientela composta pelos “emergentes digitais” cursos a distância que exigem, na ponta do usuário, tecnologia extremamente sofisticada, estado da arte.

Ou seja: o cenário parece estar pronto para uma abordagem minimalista à EAD — que é o que o Wilson preconiza e oferece.

Na verdade, a discussão no curso tem deixado claro que uma abordagem minimalista é útil até mesmo em contextos em que o argumento financeiro (o custo) não se aplica. É possível defendê-la, no contexto de EAD, argumentando que, em muitos contextos em que existe tecnologia sofisticada disponível para o usuário, o “maximalismo tecnológico” (usar tudo a que se tem direito) em geral funciona como uma distração para o usuário que não contribui, necessariamente, para que a quantidade e qualidade do seu aprendizado melhorem proporcionalmente ao investimento feito.

Isso posto, é preciso esclarecer melhor o que está envolvido na proposta minimalista.

Na discussão tem ficado claro que o minimalismo em EAD, embora combata a “obesidade tecnológica”, não propõe a “anorexia tecnológica”. No caso da alimentação, refeições adequadas são aquelas em que as pessoas comem, em quantidade suficiente, comida de qualidade: saudável, nutritiva, gostosa. Não é preciso que, na alimentação, a gente se empanturre, encha e limpe o prato, de comida pesada, gordurosa, ultratemperada — isso só produz asia e má digestão (e, talvez, doença coronariana). Nem é preciso que a gente quase não se alimente e saia da mesa morrendo de fome. O princípio minimalista fica entre o “tudismo” e o “nadismo”, defendendo, na realidade, o “suficientismo”.

Que o leitor me desculpe: adoro neologismos. Por isso já usei tantos aqui.

Dou outro exemplo.

O liberalismo político clássico, que propõe e defende o “estado mínimo”, é, nessa linha, suficientista. É contra a proposta de que o estado seja tudo (como era no mundo comunista) e contra a proposta de que o estado seja nada (como é a proposta anarquista do não-estado). O liberalismo político clássico defende a existência de um estado forte (mas pequeno), exigindo que suas funções sejam clara e especificamente delimitadas e restringidas ao mínimo essencial.

O básico da discussão, até agora, é esse.

Na discussão, porém, foi sugerido um complicômetro interessante — por um médico. Disse ele mais ou menos o seguinte. No passado, em que a tecnologia era bem mais simples, quase minimalista, a “experiência operatícia” de um paciente que tivesse de se submeter a uma cirurgia do abdomem era, digamos, maximamente complexa. Ele ficava internado alguns dias, sofria um corte significativo em sua barriga, tinha uma recuperação lenta, e tinha de se conformar com viver com uma cicatriz feia para o resto da vida. Hoje, com microtecnologia ultrassofisticada, a operação se faz em poucos minutos, o acesso aos órgãos internos se dando pelos “orifícios naturais” do corpo, e o paciente muitas vezes vai embora para casa sem trauma e sem cicatriz, com uma “experiência operatícia” mínima.

Em suma: o que importa, para o usuário dos serviços médicos, o paciente, é que sua operação seja indolor, rápida, sem deixar cicatriz, e, se possível, barata — e que, naturalmente, que seja eficaz, isto é, resolva o seu problema.  Se, para isso, é necessário que se use tecnologia ultrassofisticada, maximalista, que seja.

Aplicando esse princípio à EAD, teríamos o seguinte. O importante é que a experiência de aprendizagem do aluno seja eficaz (isto é, que ele realmente aprenda o que precisa ou deseja aprender), indolor, rápida, sem sequelas negativas, e (ele espera) barata. Se, para isso, quem propicia essa experiência precisa usar tecnologia sofisticada, que use…

O complicômetro a que fiz referência está no fato de que a analogia médico-cirúrgica sugere que é necessário distinguir (pelo menos) dois problemas:

  • O primeiro problema envolve uma questão de dois lados: de um lado, a tecnologia que se usa ou aplica em determinado contexto (cirúrgico, pedagógico, etc.); de outro lado, a experiência (chamêmo-la “operatícia”, “aprenditícia”, etc.) que as pessoas envolvidas nesse contexto têm em decorrência do uso ou aplicação da tecnologia.
  • O segundo problema diz respeito ao segundo lado da questão anterior, as pessoas envolvidas, e ele também tem dois lados: de um lado, a experiência de quem propicia a experiência ao beneficiário do uso ou aplicação da tecnologia; de outro lado, a experiência do próprio beneficiário do uso ou aplicação da tecnologia.

Neste segundo problema, temos, no exemplo da operação, de um lado, o médico e, do outro lado, o operado, em si. Para o operado, a experiência operatícia, quando o médico usa a tecnologia maximalista mencionada, é minimalista. Ele não sente quase nada. Ele, na realidade, nem é paciente, no sentido estrito do termo, porque não sofre nada! Quanto à tecnologia, é bom que se registre que o operado não usa nenhuma. Para o médico, entretanto, há uma curva de aprendizagem significativa, tanto no uso da tecnologia em si como na aplicação das novas técnicas cirúrgicas que a tecnologia torna possíveis — porque, para propiciar ao paciente operado a experiência minimalista (quase nihilista, ou nadista) de não sentir quase nada, de não ficar com cicatriz, etc., o médico teve de aprender a usar essa tecnologia sofisticada, isto é, maximalista!

[Parêntese: será que há resistência, entre os membros da classe médica, à necessidade de estar sempre reaprendendo a profissão, como parece haver entre os professores? Parece-me que não, mas posso estar enganado.]

No caso da educação, porém, não queremos que o aluno seja equivalente ao paciente operado, que não faz nada e é só objeto da ação de outrem: queremos que o aluno participe, seja ativo, interativo, colaborativo no processo de sua própria aprendizagem… Por isso, é difícil, se não totalmente impossível, imaginá-lo, no contexto de EAD, totalmente sem acesso à tecnologia (como acontece com o paciente operado). Mesmo no caso de um telecurso oferecido pela televisão, o aluno precisa fazer uso do aparelho de televisão (que é tecnologia), e, portanto, não se compara exatamente ao paciente de uma operação (embora, admitamos, neste caso fique perto).

Espero ter despertado o interesse dos leitores pelo tema…

São Paulo, 25 de Agosto de 2011

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Apresentação

Este blog é parte de uma experiência: a de criar um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) — ou Virtual Learning Space (VLS) — “suficientista” que usa os recursos mínimos necessários e suficientes para uma experiência de aprendizagem colaborativa online. O conceito é explicado no artigo “Educação a Distância ‘Suficientista'”.

No início da primeira década deste século, criei, no Instituto Ayrton Senna, a expressão “Experiência de Aprendizagem Colaborativa” (EAC) para designar um ambiente suficientista de Educação a Distância Online, usando um site e uma lista de discussão hospedada no Yahoo!. O adjetivo “suficientista”, em si um neologismo, não era usado então.

Como é um exercício, não prometo dar continuidade a ele: trata-se mais de “prova de um conceito”, no contexto de um curso sobre EAD Minimalista que estou fazendo sob a coordenação sempre competente do Prof. Wilson Azevedo.

Obrigado. Deixe seus comentários, se quiser. Espero que blog seja útil.

Eduardo Chaves

ec@vmc.vc